sábado, 19 de julho de 2014

RIO PARNAÍBA - 4 poemas de Francisco Carlos Machado



             Reconhecimento ao Rio Parnaíba
             Rio Parnaíba, grande rio.
              Fostes um benfeitor de minha terra,
              de muitas terras no passado.
              Com teu caráter persistente
              não desejou tréguas pra o nordestino
              habitante de teus leitos,
              sofresse por falta d’água,
              deixando de viajar ou de produzir
              economia em sua terra.

              Rio Parnaíba, grande rio.
              És perene benfeitor de minha terra.
              Com o caráter incansável que tens,
              trabalhas ainda para minha terra
              receber eletricidade e de tuas belas águas   
              lazer e sustentos para se manter.

              Muito obrigado, meu bom rio.
              Tu és verdadeiro manancial.
              As muitas vidas encontram em ti
              alimentos para existir.



 


                 Rio Parnaíba


          À margem esquerda do rio Parnaíba,


                onde vivo e desfruto de suas belezas,

                tiro as vestes, e nu, todo despido,
                atiro-me as suas límpidas águas de verão.
                E sentindo-me um peixe ao nadar,
                mergulhar em seus leitos,
                entrego-me completamente a natureza.

                Revolvendo-me nas suas areias brancas,
                sentindo-as rispidamente em minha pele,
                com a brisa amiga que me revela
                o quanto à vida é gostosa e bela,
                atiro-me novamente nas suas águas,
                mergulho fundo, nado, me lavo,
                voltando satisfeito para casa. 


A Prostituição do Parnaíba

 O rio passou a ser navegável.         
Em seu dorso infantil e furor ávido
de progressos, o gaiola Uruçuí,
em corrida espermatozóica,
sangra bruscamente suas águas virgens.
                
Fecundando-o no Atlântico
senti o clímax dos gozos
das riquezas do século XIX
gerando povoados, vilas e cidades.
Cada transportar de coisas, bichos e bens,
gentes brancas e pretas eram socos de coito
que tornaram o rio meretriz,
conhecido na praça do mercado.
Viciando o Piauí e seu vizinho Maranhão,
vivendo ambos dualismo sexual pornográfico
usufruindo o gozo líquido do Parnaíba,

Anos de cópulas. Posições e gozos variados.
Ao tornar velhas as águas prostituídas do rio,
no encontrar de fontes novas de prazeres e riquezas,
abandonaram-no ao assoreamento, corpos estranhos,
poluição e depilação dolosa de suas margens -
As doenças venéreas do rio.


As Canoas do Parnaíba

Pescadores do Parnaíba, madrugada inteira,
com canoas e redes, em corridas silenciosas,
labutam, pescam o pão.
No alvorecer, redes metodicamente lavadas,
postas são em cofos de palhas.
As canoas presas por correntes
são fixadas em estacas perfuradas no argiloso
lábio esquerdo do rio - sua margem.

Repousando, balançam em águas correntes,
límpidas, momentaneamente pacíficas.
E no repousar, as  canoas vivenciam toda
a trajetória diária do Parnaíba,
testemunhando o destino do rio - o mar.

Ouvem o cantar de suas águas,
cortadas por galhos secos,
sobresoltos na atmosfera,
de árvores centenárias,
sepultadas no fundo de seu leito.
 
Ouvem o barulho dos montões de barreiras
de areias brancas, que  jogam-se em suas águas,
como facadas de natação.
                 
E no profundo, o rolar das britas,
de troncos mortos de mais árvores,
que os lábios feridos do rio assassinaram,
sepultando em seu interior.

Elas recebem visitas de cardumes pequenos,
miúdos, beijantes de seu dorso,
companheiros aquáticos,
amenizadores de sua solidão.
E de um poeta triste e naturalista
que ao chegar aos lábios do rio,
despeja lágrimas suas,

O SENTIDO DA VIDA


                Sozinho estou no topo deste monte,

                ao meu redor encontro vidas.

                Encontro os pássaros cantando em melodias,

                os calangos correndo em folias.

                Encontro borboletas, formigas, plantas, flores.

                Fito os olhos no horizonte colorido, no vale do Parnaíba,

                na cidade abaixo de mim.

                Vejo as pessoas caminhando nas ruas, as casas,

                e ouço o barulho das crianças brincando na praça.

                 Respiro fundo, pois um vento viajante passa,

                fazendo as folhas das árvores murmurarem.

                O meu ser indaga:

                - Qual o sentido da vida?


                Começo a filosofar, vou muito longe...

                De repente, paro. Descobri o sentido da vida!

                Olho para mim e sinto o coração pulsar,

                jorrar sangue em meu corpo.

                Novamente fito os olhos no horizonte colorido,

                eles enchem-se de lágrimas.

                Fico trêmulo, levanto minhas mãos

                e brado bem forte:

                - Deus, tu és o sentido da vida.
Cenário descrito no poema
        Fonte: Adolescência Poética, Francisco Carlos Machado

quarta-feira, 16 de julho de 2014

BILL DE JESUS


                   Na caixa de e-mail pessoal se recebe a notícia enviada por Elizabeth Faria de quer Bill de Jesus, na manhã de  4 de Agosto de 2011, em São Luis, havia falecido aos 53 anos.
                     Professor, teatrólogo, ativista cultural multifacetado e poeta, o buritiense Benedito Ferreira de Jesus, popularmente  Bill de Jesus, dedicou sua vida para as expressões culturais populares e artísticas.
                     Nascido em 26 de Março de 1958, filho de Raimundo Nonato de Jesus e Maria José Ferreira de Jesus. Viveu em sua cidade natal até 1975,  quando parti para  São Luis, objetivando continuar os estudos e realizar os sonhos pessoais.  Na capital cursou o 2º grau no CIPE, concluindo em 1982. Paralelo, em 1981, com vocação para as artes cênicas, faz cursos de Sensibilização Teatral e Dicção, instruído por Aldo Rebelo e Eudózia Acunã, no Grupo Gangorra. Estudou também técnica de Teatro de Bonecos e atuação para Atores. Em São Luis atuou no FETEMA ( Federação de Teatro do Estado do Maranhão) e LOBOART- Grupo de renome na capital - além  do Grumate e o Grupo Pote, idealizado por ele e a atriz Ana Tereza Desterro.
 
                     Em 1985, Bill que há um ano se mudou para a cidade de Arari participa em Brasília do Seminário Brasileiro de Teatro. Em Arari, que adotou como sua, continuou ativamente se  envolvendo nas produções teatrais, ora sendo diretor, ator; ora sendo contra-regra e cenógrafo em grupos como    “ Mistura ” , fundado em 1988, transformado em Companhia em 2003. Seus bonecos gigantes, os   “ Bonecos de Bill ”, tornaram-se atrações culturais e tradicionais nos carnavais de Arari, no qual foi grande animador.  Como professor de artes,  literatura e história em redes publicas e privadas locais,  Bill de Jesus foi um mestre que unia teoria e prática no processo de aprendizado de seus alunos, contextualizando a realidade socioeconômica e cultural dos mesmos. Os educandos eram companheiros de Bill, e juntos movimentava o ambiente cultural das escolas, organizando peças estudantis, recitais poéticos e musicais,  e seminários com temáticas diversas, voltadas sempre para a comunidade arariense, participante fiel dos eventos.
                    Tornando-se enfim, uma das principais lideranças culturais da cidade que adotou, recebeu em 2003 o título de Cidadão Arariense, em reconhecimento aos extensos trabalhos educativos e culturais  realizados. Gestor municipal de cultura da prefeitura desde 2007 conseguiu dentre muitas conquistas, a reativação da Escola Municipal de Música da cidade. Bill pelas peças de teatrais que escrevia e dirigia; pelos poemas publicados em jornais locais, chegou a receber oficialmente convite para ser membro da Academia Arariense- vitoriense de Letras, mas por razões pessoais não aceitou. Historiador, graduado pela Universidade Estadual do Maranhão, pesquisava sobre o tambor de Crioula da Trizidela de Miguel Campelo, visando um artigo de conclusão da pós-graduação.  Como poeta, organizava sua primeira antologia de seus belos poemas,  pretendendo lançar no aniversário de 54 anos.
                        Nos encontros de gestores culturais dos municípios maranhenses, Bill de Jesus sempre me perguntava por Buriti, e o que se fazia pela cultura de sua terra, onde em ultima visita em final de Julho de 2011, colhendo depoimentos de amigos e conhecidos, gravando cenas e lugares de sua infância e adolescência, objetivava organizar um documentário autobiográfico,  pelo qual deixou em andamento, pois na manhã do dia 2 de Agosto de 2011, dirigindo  uma performance teatral numa conferência pública em Arari, Bill passou mal. Foi levado as presas para um hospital local. Não tendo melhoras é enviado para  São Luis, falecendo na manhã do dia 3 de Agosto. Como pedido, depois de ser velado em Arari, cuja  população, amigos e admiradores ficaram profundamente comovidos, seu corpo  mortal retornou a sua cidade Buriti, onde fora sepultado no cemitério São José.  

 

                                                  2 Poemas de Bill        

                                                                             

Ventre Sacrossanto

 
O corpo sacro grita pela salvação

do ventre verde,

de uma terra sem chamas

e ao mesmo tempo fria.

 

Chamas de um inferno sem dono,

Mas, ao mesmo tempo,

de bilhões de lucíferes, fria,

de geleira sombria de amor a Deus.

 
Ó ventre de minha Mãe Sagrada!

Ó mata verde-brilhante!

Ó grande Tupã!

Não deixes cair

em tentação de Anhangá, demônio

de um Capitalismo sem fronteiras.

 
Ó Terra Sagrada!

Teu Corpo Sacrossanto

grita pela salvação do ventre-verde

de uma mata sem plantas, pássaros,

água, ar e jabutis,

cujo ventre gerou também

a paciente preguiça,

que acreditou jamais acabar

a fonte de sua alimentação.

 
Ó Mãe Maria da Paz!

Trazei de volta ao ventre

Os sonhos coloridos de flores,

frutos, peixes, ventos,

mares earco-íris,

 
 
que outrora eram o Paraíso.
 
 
Índio
 
                                     O corpo
                                     nu
                                     Pintado de cores
                                     Geograficamente surtidas
 
                                     Horas de guerras
                                     Horas de alegrias
                                     Horas de reflexão
                                     Se arrastando pelas aldeias
                                     Azedas e féticas
                                     Sem injeção de respeito,
                                     Dignidade, auto- estima.
                                     Sem cidadania! 
                                            
                                     São milhões de perdidos, sofridos e saqueados.
                                      Humilhados!
                                      Sofridos às margens do rio-social amargo.
                                      De uma conjuntura sem dó, sem dor e sem pudor.
                                      Que estraçalha a vida humana
                                      com dinheiro mesquinho de um mundo sem deuses,
                                      De uma elite pobre.
 
                                       Índios homens
                                       Que pátria tu tens?
                                       Que homem tu és?
                                       Que sonhos tiveste?
 
                                       O teu sonho,
                                       A tua cidadania... se foram!!!
                                       Como uma pomba branca
                                       Que até hoje continua branca, nebulosa e cinzenta.
                                       Sem corresponder
                                       ao sonhado sonho da paz!!!
                                       Sim.
                                       Da paz !!!
                                       Simplesmente porque é pomba.
                                       E pássaro não valem nada para eles.
 
                                       E você
                                       Simplesmente porque é índio
                                       Saudosa maloca!!!
           Aldeia querida!!!
                                 


















 
 
 


 

 

 

 

sábado, 12 de julho de 2014

Poeta Zé Borges

Nasceu o poeta José Borges em Teresina, capital do Piauí, em 6 de Janeiro de 1950. Quando criança seus pais, a mãe cearense e pai piauiense, se mudaram para o município de União, 60 km da capital,  morando no povoado Sitio. O menino Borges cresceu  num ambiente rural de trabalhos em roças, e sempre para se manter trabalhou. Quando adolescência, estudante de técnica agrícola em Teresina, foi comerciário na Firma Expedito Leite Chaves, depois cobrador e fiscal de ônibus, trabalhador como apontador e auxiliar de contador numa  empresa de São Paulo, que tinha filiação em Teresina. Seu ultimo emprego na capital foi de recenseador por um mês no IBGE, quando passa a morar em Coelho Neto na casa de uma irmã, no final de 1970, onde trabalhou cinco meses no Grupo Bacelar. De Julho de 1971, no governo de Uiran Souza, foi secretário adjunto na Prefeitura. É em Coelho Neto que conhece a primeira mulher, a buritiense Maria de Graça, casando-se em 1974. Do consórcio nasceram seus seis primeiros filhos.
Em 1975 vieram morar em Buriti. José Borges trabalhou como operador da Telma e escrivão da Polícia da cidade, chegando ser também delegado substituto. Os vereadores gostando dos serviços  prestado a comunidade lhe outorgaram em Setembro de 1979 numa sessão da Câmara o titulo de Cidadão Buritiense.  Em 1983 passa residir em Santa Quitéria, onde trabalhou no INCRA, foi Secretário na Prefeitura Municipal da cidade e professor de diversas disciplinas na Escola Cônego Nestor Cunha. Ele com a família retornam para Buriti. O casamento, porém, com Maria de Graça se desfez no fim de 1990.
 Em Buriti o seu circulo de amizade era formado de membros das diversas camadas sociais. Cultivou grande amizade com o poeta Lili Lago ( 39 anos mais velho que ele) se tornando companheiros de trabalhos e boêmia. Nos botecos e cabarés de Buriti, viviam declamando seus poemas, cantando os dilemas da vida, a terra e as mulheres. Organizou “Lágrimas de Um Poeta”, coletânea poética com 56 poemas. Na obra, José Borges com uma temática que enfatiza o romantismo, as dores e conflitos do amor pela mulher, os seus dissabores e sofrimentos, transformados em dissabores pessoais e lágrimas.  Se dedicou também ao teatro, produzindo algumas peças. Escreveu o cordel “O Sonho de Pelé”, e um estudo sobre a história, geografia e as personalidades de Buriti, sendo um dos pioneiros em estudar os diversos aspectos do município. Foram também famosos os seus panfletos satíricos e políticos, que circulavam as ruas da cidade em forma de folhetins.
Em vida não realizou o sonho de ver sua obra “Lágrimas de Um Poeta ” publicada, algo que lamentava, assim como diversos projetos literários. Em 15 de Outubro de 1997, dia do Educador, por volta das 2h da madrugada, o coração de Zé Borges, intelectual, professor e poeta, acima de tudo, sentiu fortes contrações. Levado as pressas para o hospital Smith Braz, não resistiu, desvanecendo quando o dia clareava. A cidade de Buriti, enlutada, sentiu muito a perda dele, que com sua inteligência multifacetada havia prestado  diversos serviços a comunidade em áreas da agronomia ao magistério, do direito ao ativismo esportivo e comunitário, da literatura ao jornalismo.
Seu filho primogênito, Alan Borges, que guardou os manuscritos do pai, testemunha que o poeta Zé Borges “ foi um cidadãos servidor. Viveu para a educação dos filhos e em servir as comunidades onde estava inserido: Coelho Neto, Buriti e Santa Quitéria. Ele defendia, como advogado, pessoas humildes que não podia pagar honorários. E profissional da EMATER-MA, conseguiu muitos projetos como açudes. Ele servia com humildade e dedicação”.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Leituras, reflexões do dia e banho nu no Parnaíba


Dei-me conta de que há um ano e alguns meses não banho no rio da minha terra.  Hoje certa melancolia interna e o calor forte da tarde me fez pensar nele. Tenho o rio como um amigo ambiental. Consigo sentir sua vida líquida. Obviamente, sempre o encontro no mesmo lugar geográfico, mas sempre sofre algumas alterações: montões de areia, devido o subir das enchentes, mudaram de posição; uma árvore cresceu mais um pouco nas suas margens. Ações naturais e antropicas mudam sempre o rio.  Assim, sempre existe algo novo para ver.
Fui então ao encontro do Parnaíba. Pilotei a moto até a casa de meu pai que mora perto. Após alguma fala com o genitor, peguei na escrivaninha de seu quarto uma revista Seleções de junho e continuei rumo ao Parnaíba caminhando. Ao chegar, desço o barranco feito de pisara, sento a margem, tiro a sandália e ponho os pés dentro da água transparente, correndo pra longe. Vai para o atlântico, penso. Defronte a mim o estado do Piauí; uma praia de areia branca clareada pelos últimos raios do sol. Do lado da margem esquerda que estou, onde estão nossos supremos domínios estaduais, vejo dentro de uma canoa um amigo. Esses amigos alguns meses atrás sofreu uma AVC e agora estava ali, com sua esposa pescando. Sinto uma alegria me envolver, em saber que ele a cada dia melhora.

Enquanto meus pés ficam de molho nas águas límpidas do Parnaíba, folheio os textos da Seleção, cuja capa amarela sobre a Copa de Futebol, sediada no país, tem causado frenesi. Internamente os textos da revista falam do jeito “incrível de dizer eu te amo”; sobre cuidar da diabetes; animais que expressam amor aos parceiros; sobre lixo deixado por alpinistas no topo do Everest; da vida rural na Transilvânia, onde húngaros, romenos e alemães vivem de maneira simples, ruralista e bucólica. Li com gosto tal reportagem chamada de “Um mundo fora do Tempo”, cujas belas fotografias da antiga vida rural e de seus habitantes, nesta parte do mundo, me encantaram. Algo belo também que me encantou, foi a crônica da escritora Lisa Fields, chamada “Lembranças”, sobre a concha de retalhos que ela costurou com pedaços das primeiras  roupinhas que sua filha Eva usou até os cinco anos. A concha seria um memorial, uma homenagem a sua filhinha amada. Cada parte da peça eram partes da história da menina, momentos vestuário da sua vida: partes do vestido do nascimento, a roupa do batismo, do primeiro ano, do primeiro dia pra escola, etc. Um encantador o texto.
Há esta altura, menos triste, e mais reflexivo pensei Nele, em Deus, diante da beleza da criação que é o Parnaíba. Pensei nos últimos intensos 25 dias de viagens entre os estados do Tocantins e Maranhão. Olhos para os meus pés dentro do Parnaíba, cheio de rachaduras, enfim, estão descansando. Ali pensei no amor também, os tantos temas de amor da revista, creio me levaram a pensar neste sentimento. Então penso num amigo que muito amei que já partiu há dez anos inesperadamente, no qual uma foto dele vista poucos minutos no computador, antes de decidir vim ver o rio, aumentaram a tristeza que existia em mim. E bom amar, digo, quando assim fazemos tudo tem mais sentido. Assim penso com ternura em uma amizade que brotou alguns meses e cresce em mim. É bonito crescer afeto, amizade dentro da gente.  Olho pra o rio e me lembro de uma frase: “correr atrás d’aquilo que você ama”. O amor é sim, penso, tudo na existência.
Enquanto o sol vai embora e medido as margens do velho monge, alguns “mucuins” atacam o meu braço desnudo. Quanto mais finda à tarde, mais mucuins querem sangue. Passo pedra sabão nos pés rachados. Em molhos na água é mais fácil nivelar a pele do pé. Por que os pés da gente racham? O bermudão que visto devido à higiene se molha todo. Fico em pé. Não existe mais luz do sol na areia da praia. Porém, aumenta os pescadores dentro rio, subindo com suas redes. Chega um conterrâneo idoso. Saúda-me.  Tira o calção, banha de cueca no rio. Chega outro ribeirinho, entra numa canoa ancorada e rema para a outra margem.
Desejo banhar para me livrar dos mucuins, e por que também queria sentir o rio. Enquanto nenhum olhar humano me ver, fico nu, despido totalmente. Assim, rápido, me atiro num salto magistral no Parnaíba. Suas águas refrescantes, com corredeiras medianas, fazem com quer eu me encontre com partes do meu ser, minha história natal e ambiental, onde sem dúvida, o rio é um dos elementos mais significativos. Nado nu. Mergulho nu, pelado, naturismo vivencial salutar, e todo o meu corpo e alma são limpos, purificados, existindo uma sincronia de ternura com o meu rio.

No final, ao subir o barranco de pisara de volta para casa, retorna a ser pessoa alegre e feliz da maioria dos instantes existenciais. Estando com o rio  me reencontro com minha maior essência.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O MEU MAIOR CONTADOR DE HISTÓRIAS - EM MEMÓRIA DO MEU AVÔ


O meu avô Agostinho faleceu há mais de vinte anos, 21 anos precisamente. Pouco na vida, publicamente, falei do meu avô. Não sei exatamente a razão. Talvez seja pelo vazio ainda existente da presença física dele; talvez seja pela dor ainda sentida por sua partida; ou talvez, certo desejo de guardar no meu coração/memória as lembranças dele somente pra mim.

Enfim, realmente, pouco dele falei ou escrevi. Só uma crônica, que está engavetada. Agora, desejo quebrar um pouco desse silêncio e vou contar algo sobre meu avô, de algumas lembranças e momentos juntos, da influência  que  sua vida  causou  na  minha .

Em meados da década de 10 do século XX, uma seca enorme  sobreveio sobre  o sertão nordestino – e Maria Machado – grávida, decide abandonar o Ceará,  fugindo com migrantes  para o Maranhão. Ela retirante, no caminho pariu, ainda em solo cearense, gêmeos,  meu avô e o outro irmão. Em final de dezembro de 1913 ou começo de 1914, encontraram guarita no vale do rio Parnaíba. Então, se fixaram no lugarejo/porto fluvial chamado Garapa. Ali, no Garapa vovô cresceu, casou, criou 12 filhos com muita decência e trabalho.

Em 1970,  alguns filhos morando fora, devido profundas mudanças que os negócios industriais e pastoris das famílias Oliveira e Bacelar causavam no Garapa,  agora  cidade Duque Bacelar, meu avô Agostinho, aos 57 anos, se viu obrigado deixar sua terra, no qual amava, indo embora com todos os seus filhos, mulher, nora, netos e alguns amigos, para São Luís,  em cima de  um caminhão. Fixaram residência no bairro  Alemanha, as margens do rio Anil, subúrbio da capital.

Mesmo estando com todos os  familiares  em São Luís, com exceção de papai Carnaúba ( com família  constituída decidiu ficar em sua  terra),  meu avô que cresceu em ambiente rural, jamais se acostumou com polis grande. Tão certo,  tendo  eles  outro terreno ligado ao quintal da casa na Alemanha,  vovô plantava legumes de roça: milho, feijão, quiabo, etc., tudo orgânico.  Certamente, no seu  interior, em sentimentos e emoções, ele jamais deixou o  campo e o Garapa. Assim, todo ano, viajava pra lá e passava dias na casa dos meus pais na Santana Velha; depois quando meu pai voltou morar na cidade, vovô  iria  também. As suas visitas proporcionaram que eu e os meus irmãos convivessem com ele.  E é aqui que a história da minha vida se interliga com a dele, e confesso: linda foi.

Criancinha, o mais novo de casa, lembro-me dele chegando  no  ônibus “Salete”, no final de outubro, quando viajava a nossa cidade para ascender velas para três filhos falecidos, em tenra idade, no Cemitério Julião, como pra sua mãe no Cemitério da Fazendinha. Quando o ônibus parava defronte a nossa casa, alguém avisava que o vovô tinha chegado. Eu saía correndo com uma alegria enorme pra receber o meu avô. E pegava em suas mãos brancas, entrando  com ele em casa.

Lembro também, acho que entre os cinco  ou seis anos, meu pai me levou a primeira vez pra São Luís, passar as férias na casa do vovô. Nunca esqueço  dessas férias. Sozinho, meu amigo, minha companhia foi ele e a vovó Bernarda.  As cenas vivazes na memória desses dias são ainda coloridas. Meu avô me levou para ver a maré baixar e os caranguejos no mangue, à margem do rio Anil. Da insistência minha pra banhar na chuva, ele me deixou sair e ficar na rua banhando ( mas com ele vigiando da grade da varanda), e o “conselho de banhar até tremer os dentes ”. E então saciado de chuva, dentro da casa tremendo os dentes de frio, ele com muito amor foi pegar a toalha. “Frio né?! Falou, rindo”.

Mas das lembranças as que mais marcaram mesmo foram das histórias contadas. No fundo do quintal da casa na Alemanha tinha uma casinha de um só cômodo que servia de depósito  de objetos e também servia pras reflexões de vovô. Ele se refugiava ali. Se eu não o encontrava em qualquer canto da casa principal, podia ir lá, onde ele tinha o hábito metódico de todos os dias escrever  numa mesa de madeira   de giz,  o dia de cada  mês.  Foi nesta casinha  que  o mesmo  me contou  sobre  uma cobra enorme,  moradora  da casinha,  no qual ele alimentava, quando eu começava mexer nas coisas. Questionador deste cedo, pergunto por ela, a cobra, mas ele me respondeu que a mesma só aparecia com ele. De certo forma, acreditava; achando fantástico ele criar e alimentar uma cobra.

A outra história marcante foi sobre a alma de Duque Bacelar. Lembro que com saudades da cidade ao pronunciar o nome dela, vovô docemente me “repreendia”, com certo mistério e olhar de graça. Aconselhava para não falar o nome Duque Bacelar, se não a alma penada dele poderia vim me visitar durante  o sono. Era pra eu chamar o nome da cidade Garapa, dizia ele. E questionador infantil, perguntava quem era esse Duque Bacelar?  Mas ele não me respondia, escondendo algo. Tais diálogos me causaram grande impressão, pois  Duque Bacelar  para mim era o lugar onde morava, algo sem vida, jamais uma pessoa. Assim, imaginava como a alma penada de uma cidade poderia vim me visitar durante  o sono da noite.

Essa foi a primeira e a única das férias que passei diversos dias com vovô. Nas outras férias ficava só alguns dias, pois alguns irmãos meus estudantes em São Luís, morando na casa de tios, me levavam pra ficar com eles. Também, a partir de 1989  houve uma crise no relacionamento de minha mãe com meu pai, devido um  caso extraconjugal,  tendo  vovô se envolvido na briga,  estando em casa,  fazendo  ele, magoado e orgulhoso, não mais  se hospedasse em nossa casa,   em Duque. E também   meus pais  adquirindo uma casa  para os meus irmãos ficarem estudando em São Luís,  estando na capital, nas férias   ficar mais com eles.

 Após poucos anos, a idade avançada, meu avô teve problemas  com a próstata. Surgiu um câncer. Estando novamente de férias em  São Luís, em janeiro de 1992,  minha irmã Rosa me convidou para visitar vovô.
- “Ele está muito doente”, me falou ela.  “E  talvez você indo embora para Duque sem fazer a visita, não veja mais ele”. E fomos visitar vovô no bairro Alemanha. Lembro-me dele bem debilitado, deitado numa cama, tomando soro e bebendo água de coco. Um tio otimista, animando-o, dizendo que ele ficaria bom. Lembro que tomei a benção de vovô, e que nós conversemos e recordemos de coisas, mas não consigo lembrar o conteúdo delas. Foi meio diferente àquela visita.

Alguns meses após, começo de noite, dia 8 de Agosto, estava no meu quarto calçando um tênis para ir à escola, ouço choros e a notícia de quer o vovô tinha morrido. Senti um aperto no coração. Lágrimas desceram forte, em meus  13 anos de idade. Depois da busca da solução do carro para  se viajar a São Luís, chegando todos  de madrugada. Durante o restante da madrugada e do dia,  me comovi muito com pessoas chorando, principalmente a prima Samia, mas eu não conseguia chorar mais o fim da vida do meu avô. Ao  levarem  seu corpo no final da tarde para o cemitério do Vinhais, havendo   àquela crise última  de lamentos e choros, escondendo –me no primeiro quarto da casa,  chorei sozinho, sentindo  muita dor. Perguntaram se desejava ir ao cemitério, disse que  não. Tive um  medo,  no qual não sei a razão.

Quando chegou a noite, nós os descendentes do vovô que ficaram em sua terra, voltamos para o Garapa. Algo, porém, durante meses se abateu sobre mim pela primeira vez. Luto aos 13 anos de idade. Vovô foi a primeira pessoa na vida que eu amava que havia morrido. Durante alguns meses seguintes, as lágrimas que eu não consegui verter  muito durante o velório, vieram abundantemente, durante meses. E sozinho eu chorava. Menino tímido, ninguém  nunca soube o quanto de sofrimento suportei. Eu amava o meu avô.



Amanhã, dia 6 de Dezembro de 2013, seu meu avô Agostinho Machado estivesse vivo, iria comemoram 100 anos de vida. Ele, o meu avô , nascido  nas estradas secas e sem vida do Ceará. O avô que quando  criança, na casinha dos fundos da casa da Alemanha, contou a história da cobra e da alma penada do Duque Bacelar, pedindo pra não chamar o nome do nosso lugar Garapa, de Duque.

Ele contando àquelas histórias jamais imaginava que exerceriam uma influência intelectual tão forte e marcante em meu pensamento.  Suas histórias, como sementes plantadas em meu ser, e o 'não' dele para a pergunta que fiz aos 5/6 anos, “quem era Duque Bacelar?” - um dia me levariam a ser um dos principais pesquisadores sobre a história desde Duque Bacelar -  o  Duque cidade e  pessoa - como também um apaixonado por histórias de pessoas e as histórias de tudo do mundo.

E tal paixão hoje, não somente dão frutos sociais e escritos, mas também ajudam  criar, de certa forma,  uma nova história em nosso Garapa, sendo assim registrado  outras;  não deixando que essas mesmas histórias, como a própria história do meu avô,  não seja levado com os que se vão, fiquem esquecida  na história e no tempo.

Esse,  o meu avô Agostinho, que vos digo, foi o maior contador de histórias e o mais importante que tive a felicidade de  conhecer e ouvir.

                                                                                      Brasília, dezembro de 2013