quinta-feira, 21 de novembro de 2013

POETA LILI LAGO


            Aristotelino Carvalho Lago, vulgamente Lili Lago, filho de  Antonio Teixeira Lago e Laura Rosa de Carvalho Lago, estes oriundos de Brejo, de tradicionais famílias. O bisavô de Lili Lago, Luis Pereira Lago e o avô Luis Pereira do Lago Junior, foram deputados em diversos legislaturas no Estado do Maranhão. Nascido em 31 de Março 1911 em Buriti, fez as primeiras letras na sua terra, de onde partiu para Teresina-PI cursar o ginásio no emerito Instituto Demóstenes Avelino, fazendo só  até o 2º ano.
            Em Buriti, no exercer de ocupações, Lili Lago foi Tabelião Público do 2º Ofício e fundador da Escola Lili Lago, dedicando-se a formação educativa da juventude. Lili, foi também o primeiro agente nos Correios de Buriti. Casa-se em Outubro de 1944 com Letícia Faria Costa Lago, que fora sua aluna na escola que fundou, tendo originado do consócio os filhos: Carlos Rogério, Adhemar Wallace, Josélia Maria, Getúlio Roosevett e Aristóteles Lincoln Lago, Aristotelino Carvalho Júnior e Allan Acásio.
             Desejando recidir em São Luis, deixa sua terra no ano de 1948. Na capital ocupou os cargos de Secretário e Chefe de Gabinete de diversos prefeitos, chegando a ser em um deles presidente da Comissão de Abastecimento de Preços do Maranhão.
              Desde jovem dedicou-se aos estudos de direito, adquirindo o status de advogado provincionado, tendo assim exercido o ofício nas Comarcas de Buriti, Coelho Neto e Chapadinha. Político, foi getulista no Estado Novo, e sempre militando no PDT.
                 Em vida teve publicado no ano de 1990, o livro “ Meu Baixo Sertão ”,  obra poética dividida em três partes, “ Folclore de Salão”; “ Miscelânia ” e  “ Memórias de minha Infância ”. O livro escrito em  versos de rimas leves e transparentes, cheio de humor, inreverência e saudosismo, o poeta  Lili  descreve as suas vivências  buritiense, com os  episódios da infância e juventude, o cotidiano e a cultura da gente simples de sua terra,  as histórias e os causos; a natureza da chapada, os riachos e morros.
                  Lili Lago  quando organizava  em Buriti o lançamento de  “ Meu Baixo Sertão ”, na noite de 30 de Março de 1990, foi  acometido de um ataque cardíaco fulminante,  que lhe ceifo  a vida. Faltava poucas horas para o poeta completar seus  79 anos,  e dos convites para o lançamento já terem sido enviados aos  amigos e conterânios.  
                 José Moura, amigo saudosista de Lili, também editor de  “ Meu Baixo Sertão ”, pelo SIOGE, confidência  que Lili Lago era um amigo e uma figura humana  formidável. Moura pretendia publicar uma outra obra poética de Lili, mas que após sua morte devolveu o original para a família do poeta. Porém,   como um legado cultural e literário para todos,  temos  em “ Meu Baixão Sertão ”, um testemunho autêntico de um bom poeta,  que lutou por  justiça e defendeu os pobres e trabalhadores, descrevendo em versos cândidos  os sofrimentos e a vida do povo de seu torrão natal. Um poeta cujo viver intenso, apaixonante,  se eternizou na poesia como um menino que nadou no riacho do Morro, catou piqui na chapada, fez grande amigos, bebeu cachaça à fole e  namorou as caboclas e mulatas da terra de Inácia Vaz.
 
Fonte: Vozes Poéticas dos Morros Garapesnes
 

sábado, 9 de novembro de 2013

POETA MOACIR VIANA

                          
              Raimundo Viana era uma criança retirante das secas do Ceará, juntamente com seus familiares, quando encontraram guarida no Boqueirão, centenário povoado e porto fluvial, no fértil vale do rio Parnaíba, no Maranhão. Jovem, Raimundo Viana, em visitas a cidade de Miguel Alves-PI, conheceu e enamorou Remédios Soares trabalhando nos comércios da tradicional família Rego. Casaram em 1933. Três anos depois, nasceu em 28 de Maio de 1936, seu primogênito Moacir. Após o nascimento do filho, Raimundo Viana recebe convite do comerciante Benedito Gonçalves Machado para trabalhar no povoado Garapa, distante 15 km do Boqueirão, passando a ser um dos seus vaqueiros.
               O menino Moacir Soares Viana cresceu na rua principal do Garapa, onde com as professoras do povoado aprendeu as primeiras letras. Chegando à adolescência seu pai consegue que o deputado Raimundo Bacelar lhe der oportunidades em São Luis, visando o continuar de seus estudos e trabalho para o filho. Na capital Moacir não teve muitas oportunidades com os Bacelar. Ele, porém, conseguiu estudar até a sexta série, e sobreviveu  arrendando um pequeno comércio de uma viúva amiga. Em São Luis ele aprende também tocar violão e deu vazão a sua arte poética. Na capital, em 1956, conhecendo uma moça, Sônia Santos, se casam, e logo volta a morar no Garapa, agora cidade Duque Bacelar. O casamento não dura muito. Separados Sonia volta para São Luis com um filho gerado do casamento. Moacir continuou a vida trabalhando como locutor nos altos falantes dos comércios da família Oliveira em Coelho Neto. Solteiro e artista festeiro, se dedica a boêmia e cabarés, declamando seus versos e tocando violão.
               No ano de 1966, o pai de Moacir desgostoso da vida social e política do antigo Garapa decidiu morar na cidade de União - PI , levando consigo toda a família. Nesta cidade Moacir organiza um comércio, trabalhando por conta própria. Nunca deixando sua arte de declamador e violeiro, se apresentava na frente de seu negócio e nas festas de União, acabando despertando paixão nas moças. Dentre elas, Jesus Gomes, que com seus olhos verdes, acaba despertando o coração do poeta. Eles se casam em 1968, gerando três filhos da relação. 
              Em 1971 a família volta para Duque Bacelar. Moacir mais amadurecido, tendo apoiou de membros da família Oliveira, é eleito vereador para o cinquênio de 1977 a 1981. Não conseguindo se reeleger no mandato seguinte, só retorna ao legislativo municipal nos mandados de 1993 a 1996; de 1997-2000 e de 2001 a 2004. Enquanto esteve na política, continuou atuando como artista e poeta. Declamava poemas nos eventos, nas serestas cantava e tocava seu violão. Atuou muito como locutor nas emissoras de rádio locais, onde foi um dos pioneiros do radialismo regional, apresentando o programa Forró da Saudade, na Rádio Tapuio.
           Moacir faleceu em 13 de Junho de 2002, sem deixar obra publicada. Uma perda para a cultura garapense, pois era possuidor de grande talento e autêntico espírito poético. Muitos de seus poemas ficaram manuscritos em folhas de cadernos comuns. Boa parte se perdeu.



terça-feira, 5 de novembro de 2013

POETA VILMAR MACHADO


                         

                                                       
              Neta de Benedito Gonçalves Machado, comerciante e político, que na década de 30 apregoava a criação do povoado Garapa em cidade, nasceu à menina Maria Vilmar Machado Vilar em 24 de Maio de 1948. Afligida aos oito meses por paralisia infantil, desde cedo sua mãe Euzamar Machado, buscando tratamento para sua filha primogênita, viajava com ela para longas temporadas no Rio de Janeiro. Na capital do Brasil, se hospedavam na casa da tia-avó, Maria Conceição Machado, na época Diretora Geral do Banco Brasil. Entre as sessões de tratamento contra a paralisia e recuperação de operações cirúrgicas, a menina Vilmar fora alfabetizada secretamente pela tia aos seis anos.
                  Em 1956, com oito anos, ela sofreu o doloroso golpe de perder a mãe Euzamar. Episódio que viera repercutir em toda sua vida e sensibilidade poética. A morte de Euzamar também afetou toda a família Machado, sendo uma das razões que levou sua avó Candoca Machado a voltar morar na cidade de Buriti, onde Vilmar passou a residir, começando ali seus estudos formais.
                  Na cidade de Buriti estudou no Grupo Escolar Antonio Faria de 1957 a 1960. Aos 10 anos de idade escreveu seu primeiro poema “O Sal”, começando sua produção poética. Enviada pelo pai Vicente Vilar para Grato, no Ceará, fez o Ginásio, estudando em escola de freiras. No Rio de Janeiro, também em escola dirigida por freiras, fez o Clássico na Escola Notre Dame. Formou-se em Direito pela UFPI, em Teresina, com distinção e louvor, em 1974. Logo depois, em 1975, de volta a sua terra, é eleita pela Arena a primeira mulher Prefeita de Duque Bacelar.
                  Como Prefeita trabalhou com afinco pela educação dos bacelarenses, fundando a Escola Euzamar Machado Vilar, de ensino técnico em Magistério, que se tornou uma instituição marcante na educação da cidade. Construiu a Praça Central, a Gruta de Pedras, compondo o Hino de Duque Bacelar em 1977. Elegendo seu sucessor em 1982, Vilmar Machado decidiu residir em São Luis, onde como educadora, a frente da Escola São Judas Tadeu, no bairro Turu, passou a educar as crianças e jovens da capital. Entretanto, nunca abandou politicamente sua terra natal e de contribuir culturalmente. Elegeu-se Vice-Prefeita na chapa de Francisco Carnaúba para o quadriênio de 1989-1992, e recentemente fundou o Grupo Folclórico Boi Majestoso, acompanhado de um bonito CD Musical com letras de sua autoria, em destaque a música “O Milagre do Vaqueiro Antenor” e “ Índia Ribeirinha ”, que exaltam a terra garapense, enriquecendo nossa cultura e cooperando na formação sociocultural da juventude.
                    Na sua vida inteira, em todas as terras que peregrinou para sua formação educativa e mesmo na prática da política, Vilmar Machado sempre se dedicou a produção poética. Muitas vezes escrevendo por encomenda de amigos e admiradores; outras pelo dom pulsando na sua alma, externando assim suas dores, questionamentos e conflitos internos de poeta diante da existência. Além de vasta produção de poemas e músicas, dedica-se também aos gêneros de crônicas e teatro. Suas peças, criativas, recheadas de humor e espiritualidade, são encenadas com sucesso pelos alunos da Escola São Judas Tadeu em São Luis.
                    Porém, essa Emily Dickinson garapense com diversas obras inéditas de peças, crônicas, músicas e poemas: belos, inteligentes e profundos; deve não só a publicação de seus textos a cultura garapense, mas como a cultura literária maranhense em geral.

FONTE: Vozes Poéticas dos Morros Garapenses

segunda-feira, 13 de maio de 2013

CARTA AO BINGÔ - 4 ANOS DA APA DOS MORROS GARAPENSES

Brasília, 19 de Março de 2013
Meu amigo Bingô


         Voltando ao meio-dia de hoje, dentro de um ônibus, para a Chácara que moro na Capital Federal, onde tive que sair para depositar um dinheiro para a compra dos foguetes do aniversário de 4 anos da APA dos Morros Garapenses, pensava no momento, com destaque em em você, dentre todos os demais amigos e militantes que construíram o sonho da nossa Área de Proteção Ambiental. Em você meu coração mais falava, pois os foguetes da alvorada que iniciam as comemorações do aniversário da nossa APA são sua cara de militante ambiental em formação.
        Amanhã, meu fiel amigo Bingó, a APA dos Morros Garapenses completará 4 anos de existência, e pela primeira vez, não estarei na Unidade para viver toda a alegria deste dia. Assim, meus olhos não verão o bolo; não leram as faixas de congratulações; não contemplaram os morros vistos da cidade, nem a cidade vista de cima dos morros. Eles também não verão os ambientalistas pioneiros, amigos e bons companheiros na luta pela preservação das vidas em nossa região; e as crianças envolvidas nas comemorações, meus olhos não verão amanhã.
       Os discursos, risos e falas, todos os sons de alegria de amanhã, também os meus ouvidos estarão privados de ouvir, juntamente com o barulho vitorioso dos foguetes, soltos dos topos dos morros, rumando para a cidade, ruas e casas, onde, ainda longe da pequena polis, estourarão, sem machucar nada e ninguém, e não trazendo nenhum prejuízo a vida, apenas consagrando a realização do nosso sonho verde, que é a vitória dos Morros Garapenses. Outrora vítimas de maus tratos e violações; vítimas até de foguetes levianos, soltos em suas matas com folhas secas no chão, criando fogo e destruindo tudo. Essas e demais ações de ausência de carinho pelos belos morros e suas matas, que não tinham valor nenhum para muitos, senão para os poetas e ambientalistas, não existe mais; pois foram estes, os poetas e os ambientalistas, que em amor mudaram a história dos Morros; criaram uma nova história, onde agora superabunda a vida preservada de todos os seres vivos do torrão natal: as plantas e bichos, lagos, açudes e do   nosso rio, que estão sendo reconstruídas e preservadas.
Estão sendo amadas, e tornam-se exemplo para o mundo de respeito e de amizade pelo meio ambiente natural.
       Então, amigo Bingó, amanhã comemore o sonho/realidade, e pela quarta vez solte os foguetes de cima dos Morros rumo a cidade. Continue essa tradição de jubilo pela preservação da vida.
Escrevo-te, digo de novo: suba os Morros com os voluntários, faça o barulho de vitória
 com os foguetes. Comemorem!!! Celebrem a vitória da sustentabilidade garapense. E vivam essa história amanhã; vivam essa história sempre, pois os cuidados e a luta pela preservação de todas as vidas neste recanto do planeta dependerá ainda de nós, do insistir permanente da construção plena desse sonho.

Do amigo,
Francisco Carlos Machado

UM AMIGO NUMA AGÊNCIA DOS CORREIOS E A VENDEDORA DE LEGUMES DE COELHO NETO NO DISTRITO FEDERAL

 


  Durante a manhã de hoje, sexta feira, 10 de Maio, nestes quatro meses morando no Distrito Federal, experimentei mais uma vez as provas das Providências do Senhor meu DEUS, cuidando de mim. E como ele cuida realmente, pois me ama sem pôr nenhuma condição.
Assim, indo numa agência dos correios na W3Sul, ASA Sul do Plano Piloto, deixar a correspondência de uma missionária amiga, que com a perna quebrada há um mês não poderia fazer, encontrei um amigo brasilienses,   o LUCIANO (ele foi motorista particular de Fernando Collo), que conheci em junho do ano passado, convivendo com o mesmo durante 20 dias em um curso em Goiânia. Fazia 10 meses que não via o Luciano, onde neste interim por nenhum meio nos comuniquemos. Creio muito ser de Deus envia esse amigo no momento em que estava na Agência dos Correios, pois sendo ele da Igreja Metodista, diante de um trabalho em planejamento entre as Igrejas do Distrito Federal, precisava falar em grupos de sua denominação. E o mais bonito  foi à alegria sentida, o recomeçar de nossa amizade cristã, mesmo sendo ele mais velho.
A OUTRA prova das Providências Divinas em minha vida foi um outro ENCONTRO logo depois, cerca de uma hora de encontrar Luciano, mas que se deu na cidade do Guará.
Estava em uma loja e Oficina de Bicicleta, pesquisando preços de pedal para a minha bike, quando ao deixar o estabelecimento, circundei uma pracinha bem arborizada nas redondezas e vi uma banca ao ar livre vendendo bonitos legumes: cenouras, tomates, alfaces, couve, cebolinhas, etc. Encostei a bicicleta, e logo puis a indagar o valor dos produtos. A pessoa, uma mulher de altura mediana, gorda elegante, passou responder. Uma couve flor diferente chamou minha atenção, e perguntei ser couve mesmo. Ela respondeu que sim. Digo-lhe que na minha região não lembrava ter deles.
- Qual sua região, pergunta-me a vendedora?
- Leste do Maranhão, respondo.
- Mas no Maranhão as pessoas não gostam de legumes, diz a vendedora, afirmando com muita propriedade.
- És do Maranhão?
- Sou me diz ela.
- Qual cidade?
- Coelho Neto, responde.
Quando a vendedora falou Coelho Neto, docemente me emocionei.
E indaguei novamente com a emoção na garganta:
- Conhece a cidade de Duque Bacelar?
-Sim, conheço, diz. Como Afonso Cunha, Buriti.
- Oh, minha amiga, falei, sou da região. De Duque Bacelar. É um prazer encontrá-la aqui. É muito bom longe encontrar alguém da nossa região. Eu vou muito a Coelho. Amo Coelho Neto.
E com um sorriso largo na face, sai de cima da bike, fui onde Raimunda Gomes, que estava atrás de sua banca de legumes, deu-lhe um carinhoso abraço.
LONGE, a saudade é mais forte, dói mais intensamente. E encontrar inesperadamente alguém de lugares comuns, da terrinha, se  sente forte emoção.
 E cheio de emoção, eu que tinha inicialmente decidido comprar só alfaces de Raimunda Gomes, comprei mais coisas, cenouras, cebolinha ( que meses não comia) e alegas. E também afirmei um compromisso com a amiga vendedora de Coelho Neto de comprar somente meus legumes em sua banca, onde vende de terça a sexta.
Diz um famoso Salmo que “ o Senhor nos faz verdejar em verdes pastos e nos guia mansamente a águas tranquilas”. SIM, CREIO SEM NENHUMA DÚVIDA, que Deus, no qual eu sirvo é quem cuida de mim.
Ele quis me dar à alegria de Encontrar Raimunda Gomes, coelhonetense, moradora há 25 anos no Distrito Federal, por algumas razões obvias,  que diz respeito a contratá-la para cozinhar e comprar seus frescos legumes no primeiro Encontro dos Garapenses que estamos organizando em Brasília.
E sendo a mesma uma garapense, pois Raimunda mesmo ainda não sabendo deverá logo saber que sua Coelho Neto é hoje uma Área de Proteção Ambiental orgulhosamente chamada GARAPENSE, assim todos nós somos garapenses.
Por fim, em Ação de Graça,  Deus seja louvado por esses dois encontros nesta manhã de sexta feira com o amigo Luciano e a coelhonetense Raimunda Gomes.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

TEXTO SOBRE A APA DOS MORROS GARAPENSES NA IMPRENSA DO PIAUÍ

Alex Motta, morador de Buriti de Inácia Vaz, que não é bordador, numa manhã de 2011, bordou comentários a respeito da criação da Área de Proteção Ambiental Morros Garapenses: “O governo do estado do Maranhão cria a APA Morros Garapenses que protege os terrenos menos elevados, mas, por outro lado, entrega as Chapadas de Buriti para os gaúchos”.
A APA Morros Garapenses foi criada em 2008 pelo então governador Jackson Lago como forma de conservar as faixas de transição entre Cerrado e a mata dos cocais no Leste maranhense. A sua área de abrangência abarca 234 mil hectares dos municípios de Buriti, Duque Bacelar e Coelho Neto. O processo de consolidação dessa unidade de conservação fornece uma informação relevante: ela é a única unidade de conservação estadual criada a partir de uma mobilização da comunidade local. Pelo visto, tomando por base a declaração do Alex Motta, essa mobilização não se deu de maneira uniforme nos três municípios e nas comunidades desses municípios do Baixo Parnaiba maranhense.
Nenhuma das considerações descerradas pelo governo do Maranhão no decreto de 31 de dezembro 2008 acena para a agricultura familiar e para o extrativismo. Uma consideração explicita o item educação ambiental e turismo ecológico, aventura e cientifico. Outra discorre sobre o reflorestamento com espécies frutíferas. Sinceramente, no que consta, as populações tradicionais do Baixo Parnaiba maranhense desapareceram para a secretaria de meio ambiente do Maranhão.
Citar-se-ia a agricultura familiar e o extrativismo de frutas do Cerrado por comporem a biodiversidade e por guarnecerem essa biodiversidade. Nomeia-se esse intrincar de agrobiodiversidade. Até onde se sabe, o português do agronegócio é ralo. Os anos de soja, eucalipto e cana não adicionaram palavra original no cotidiano brasileiro. A riqueza do agronegócio foi devolvida à população do Baixo Parnaiba maranhense na forma de empobrecimento do linguajar, do conhecimento tradicional, da economia local e do meio ambiente.
Alguns defendem um pacto de não-agressão entre o agronegócio e segmentos da agricultura familiar para que o desenvolvimento socioeconômico se dissemine. Que o desenvolvimento não fique atrelado a um só setor, é o que dizem. Em certa medida, os órgãos ambientais aderiram a essa idéia faz tempo. A criação de unidades de conservação no Brasil obedece a cartilha do agronegócio, ou seja, onde o agronegócio avança se detém processos de criação de parques e resex. Com respeito a APA Morros Garapenses, os próprios funcionários da SEMA admitem que a categoria APA é permissiva ainda mais em uma região onde se acentuam os interesses do grupo João Santos, plantador de cana e bambu, e dos sojicultores. Um pacto de não agressão interessa mais ao agronegócio do que a agricultura familiar. O Baixo Parnaiba maranhense experimenta e experimentou versões dessa proposta tanto no caso da soja como no caso do eucalipto. Os sojicultores fornecem sementes de feijão para comunidades próximas aos plantios de soja e a Suzano Papel e Celulose disponibiliza maquinário para comunidades próximas aos seus plantios de eucalipto.
O Estado brasileiro é condescendente com o agronegócio e descarta completamente a agricultura familiar e o extrativismo. Bem que os governos poderiam criar uma politica de descarte de agricultores familiares e extrativistas na zona urbana das cidades assim como existe uma politica de descarte de embalagens de agrotóxicos.
Descartar tudo tem sido uma prática do Estado brasileiro. As licenças de desmatamento e as outorgas autorizadas pela SEMA obscurecem a questão dos recursos hídricos no Baixo Parnaiba maranhense. As considerações para a criação da APA Morros Garapenses se desencontram dessa questão tão séria numa região sujeita a desertificação como se presencia em áreas mexidas para os plantios de soja nas bacias dos rios Buriti e Preto. Conhecedora da situação por que passa o Baixo Parnaiba a SEMA deveria restringir ao máximo o uso de determinadas áreas para os plantios de soja e eucalipto. Vê-se o contrário. Desde a criação da APA os desmatamentos em Buriti nunca cessaram sem respeitar espécies protegidas por lei como o pequizeiro e espécies importantes para o extrativismo como o bacuri.
Na região da APA Morros Garapenses, o Fórum Carajás articulado com a Associação dos Amigos de Buriti e com a comunidade de Carrancas carregou e carrega uma variedade de projetos e de atividades com a intenção de resguardar o que sobrou de áreas de Chapada nas nascentes do rio Preto, afluente do rio Munim. Uma das atividades, que contou com o financiamento do Casa(Centro de Apoio Socioambiental), é o manejo das florestas de bacuri na propriedade do Vicente, o gigante gentil do povoado Carrancas. Ele é um sujeito bem alto que, em determinado momento, viu-se pressionado a vender sua posse para um plantador de soja. Decidiu não vender. Como não vendeu, o sojicultor se retirou anunciando que Vicente sofreria com o despejo de agrotóxicos. Provavelmente, caso Vicente vendesse, ele se arrependeria mais tarde. Outros indivíduos se arrependeram. Comunidades inteiras se arrependeram amargamente, pois venderam suas áreas de Chapada por um dinheiro que durou pouco. Um dinheiro que mal deu para comprar uma moto para cada individuo.
O Vicente e o seu Onésio, da comunidade de Carrancas, e as comunidades de Brejinho e de Belém chegaram longe sem recuarem um milímetro sequer.
Fonte: * Mayron Régis, Articulista do EcoDebate, é Jornalista e Assessor do Fórum Carajás e atua no Programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba (Fórum Carajás, SMDH, CCN e FDBPM).Postado no Blog Piauí Sempre Verde.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

UM TESTEMUNHO EM DEFESA DE NOSSA NATUREZA *

                                                                         Quando chegamos a  Duque Bacelar,
                                                                                   os  Morros nos recebem com palmas pelo ar ”**  
  
               
                                                                        Quando criança, nas filas cívicas da Escola Paulo Ramos, ao cantar nosso hino municipal, os versos que falam dos Morros, sempre me tocaram. Em pé, em forma na fila, imaginava a beleza das palmeiras batendo palmas ao receber um visitante ou o filho da terra que voltava. No mesmo período, nesses saudosos tempos infantis, fora dos muros do Pulo Ramos, vivia nas trilha dos morros à procura de chichas, jataís, tucuns, jatobás, mutas e de todos os demais frutinhos silvestres que se encontravam. Meus amigos e eu caçamos passarinhos, e em toda temporada de caça da meninice, consegui matar somente um,  o que me fez no correr do tempo pensar dolorosamente em meu maldoso ato. Os passeios mais longos  nos levavam às margens das lagoas e igarapés, onde podíamos ver e ouvir o canto dos socós, das garças, jaças-anãs, juritis,  nambus e demais aves que formam nossa fauna alada. Conheci por nome, as vezes vendo bem perto os animais maiores, os peixes, e aprendi nadar nas águas do igarapé e do açude. Cresci como menino de interior em constante contato com o Meio Ambiente.       
                Ao sair do Paulo Ramos, alfabetizado e apaixonado por livros, devorava todos os que falavam dos animais, pássaros e plantas. Já começando pensar no mundo e na realidade, vi que a em todo o planeta a natureza era covardemente destruída. E em Duque não era diferente. Sendo prático, organizei logo um revistinha e um grupo: “Amigos da Natureza”. O ano era 1992. O Brasil sediava no Rio de Janeiro o famoso Encontro Mundial Eco 92. Entendi tudo pela televisão. Então adolescente, desejava ser biólogo. Neste período minhas caminhadas e explorações pelos morros, rios, lagoas e igarapés, agora eram totalmente solitárias e científicas. Passava horas dentro do mato coletando folhas, frutos e mudas de plantas para estudar e cultivar. Coletava búzios, conchas e pedras ornamentais encontradas, fazendo um levantamento dos animais viventes em nossos ecossistemas. Passei também a repugnar os carros de madeira e o Grupo João Santos.
                  Um dia eu tive que deixar todas essas vivências e ir embora da minha terra para estudar na capital. E longe, com a dor da saudade latejando no peito, escrevi para minha mãe: “Sinto falta de caminhar descalço pelos morros; sinto falta dos banhos no rio; sinto falta de ar puro”. Não resistindo mais a saudade, voltei. Aconteceu, após minha volta, algo extraordinário comigo: a explosão da poesia em minha alma. ECLODIA  um poeta, nascendo em harmonia e irmandade com todo o meio ambiente. Assim, passei  amar, admirar e sentir a natureza de maneira mais intensa. Agora, o barulho do vento nos galhos das árvores; o nascer do sol às margens do rio Parnaíba; o formato bonito e verde dos morros e o cantar dos passarinhos tinham um sentir e gostosura demasiadamente especial. Passava horas e horas “ namorando ” com os olhos toda a beleza existente e vista de cima dos morros, no contemplar de cada detalhe. O famoso poema “O Sentido da Vida ”, é gerado deste relacionamento.                                                             
                     A partir dessa experiência, uma revelação pessoal de 1995, que comecei a sonhar pela “ reserva e proteção total dos morros garapenses ”. O espaço verde da comunidade protegido, respeitado e guardado pelo homem. Um lugar em que as pessoas da cidade, principalmente as crianças, pudessem se envolver com o ambiente natural de maneira amigável e harmoniosa, com respeito, como Deus, o Criador de toda vida, espera de nós.
                       Os morros, o rio Parnaíba, as lagoas, o açude e o igarapé são bens de todos, não podendo ser mais usados de forma destruidora e egoísta. Não devem ser mais devastados, poluídos e queimados barbaramente. Destruir por queimadas os morros é tornar em cinzas partes da minha história; acabando com as boas lembranças de criança da minha geração e de outras que poderão se formar nos contatos com essa natureza, amando esta terra e esta paisagem. É renegar a todos nós um meio ambiente saudável, preservado. Portanto, essas queimadas definitivamente devem findar nos morros. Existem muitos lugares para se fazer esta atrasada cultura de roça de toco e fogo.
                          Assim, todos devem sonhar e buscar a reserva para bem de nossas vidas. O mundo está buscando viver sustentabilidade e a ecologia preservada. E nós fazemos parte do mundo. Somos inteligentes, racionais, pessoas de bem. Se não fizermos isso  tornarem0-nos desumanos, inimigos das obras do Criador e dos seres viventes que dependem de nós. Se não preservamos nossa natureza, dentre as muitas conseqüências negativas, culturalmente, em breve, teremos que riscar os versos do hino da cidade, pois ao chegarmos a Duque Bacelar, os Morros não mais nos encontrão com palmas pelo ar; nem as palmeiras jogarão no chão os coquinhos para as mulheres quebrar, e o poeta que filosofa em cima do monte no “ O Sentido da Vida”, não encontrará mais vida ao derredor dele, pois toda vida existente foi devastada e morta pelo fogo e o interesse egoísta de homens sem amor e respeito a nossa natureza.

                                                                                          Francisco Carlos  Machado